Bonquiectasias

1. O que são as bronquiectasias?

As bronquiectasias são as dilatações e distorções permanentes de um ou mais brônquios, em regra secundárias a um processo infeccioso.

Normalmente atingem os brônquios de calibre igual ou superior a 2 mm e resultam da destruição dos componentes musculares e elásticos da parede, com dilatação do brônquio e alteração da função muco-ciliar.

As bronquiectasias podem ser congénitas ou secundárias a diversos processos.

As primeiras resultam duma paragem no desenvolvimento embrionário. Os brônquios na sua génese dividem-se dicotomicamente. Se há uma paragem nessa divisão o brônquio termina em fundo de saco (ver figura).

As bonquiectasias secundárias são-no, muitas vezes, consequência duma obstrução fixa (estenose cicatricial, corpo estranho, tumor). Daí resulta uma estase de secreções, subsequente colonização bacteriana, infecção crónica e lesão irreversível da parede brônquica, com dilatação da mesma, tornando ineficazes os mecanismos de drenagem brônquica.

Estas lesões da parede são devidas quer à acção do agente infeccioso, quer à resposta do indivíduo à infecção, com libertação de citocinas, óxido nítrico e proteases do neutrófilo.

Por vezes uma infecção bronquica generalizada, sobretudo na criança, é capaz de lesar a parede e levar ao aparecimento de bonquiectasias. É o caso das pneumonias do sarampo que estiveram na génese de muitos casos de bronquiectasias.

Esta infecção crónica do brônquio dilatado estende-se ao parênquima ajacente, alargando a ele o processo inflamatório, perturbando ainda mais a função respiratória.

Os processos de fibrose extensa podem, exercendo forças de retracção sobre a parede brônquica, levar a distorções dos brônquios, com falência dos mecanismos de drenagem, contribuindo para o aparecimento das chamadas bronquiectasias de tracção 8em regra bronquiectasias cilindrícas).

Tipos de bronquiectasias
Segundo Reid (1950) as bronquiectasias podem classificar-se em:

Cilíndricas – há um envolvimento edematoso difuso da mucosa, com discreto alargamento do brônquio, o qual mantém o seu trajecto e limites externos e que termina  abruptamente, em ramo quebrado (por preenchimento com muco).

Quísticas ou saculares – têm uma aparência de balões, com abundante neovascularização podendo ter níveis líquidos.
Varicosas  - têm uma aparência bulhosa, intervalada com zonas de relativa constrição. Podem resultar duma pneumonite pós – obstrutiva.

Próximais – Na aspergilose alérgica invasiva existe destruição da parede brônquica na porção terminal e ela dilata-se em balão, mantendo a porção distal o calibre relativamente normal (ver figura).

Trata-se de uma doença que pode aparecer em qualquer idade ou pode surgir numa faixa etária mais jovem?

Depende do tipo e das causas etiológicas. As congénitas e as consequentes ao sarampo aparecem em crianças. Em relação às restantes depende do momento em que se estabelece a obstrução brônquica localizada. As de tracção são de aparecimento mais tardio, pois são consequentes a processos de fibrose que, em regra surgem mais tardiamente.

Anualmente surgem muitos casos de bronquiectasias?

Felizmente não, sobretudo se considerarmos as formas saculares e varicosas, que, entre nós, eram muito frequentemente originadas em tuberculoses brônquicas em épocas em que as terapêuticas eram pouco eficazes. Actualmente essa “fonte” reduziu-se acentuadamente.
Já em relação às bronquiectasias de tracção continuam  ser muito frequentes e estão na base de muitos sintomas interpretados com de asma ou bronquite, que respondem mal aos tratamentos.


Qual a mensagem que gostaria de transmitir aos Clínicos Gerais  sobre esta patologia?

Duas mensagens!
A primeira é pensar nesta doença, multifactorial, com múltiplas origens, acarretando enorme sofrimento aos doentes e perturbando acentuadamente a função respiratória. Poderão não ser muito frequentes mas existem e podem ser diagnosticadas e tratadas, com notável alívio dos sintomas.

A tosse persistente e a broncorreia constante tem impacto considerável na qualidade de vida dos doentes e na sua socialização.

A segunda é que é necessário procurar sempre a causa duma obstrução localizada de um brônquio, a qual pode esconder um tumor, um corpo estranho ou uma tuberculose em actividade. A mínima suspeita impõe o recurso à broncofibroscopia.